O serviço como um caminho de integração pessoal.
Se tentarmos viver a vida com um sentido de humanidade profunda, como nos tem sinalizado o Papa Leão XIV, sobretudo em sua nova Encíclica Magnifica Humanitas, experimentaremos, logo, a dificuldade que supõe estarmos inteiros, sob a pressão que deriva da quantidade de atividades que temos e das múltiplas e simultâneas responsabilidades que comprometem o ritmo de nossas vidas.
Nessa perspectiva, como espiritual é a totalidade de uma vida animada pelo Espírito, o desafio que temos diante de nós é o de propor a integração das dimensões que nos compõem, antes de nos dispormos a realizar qualquer tarefa. Integrar-se é, por isso mesmo, marcar um horizonte claro e concreto no projeto de vida que temos. Conferir-lhe um sentido e uma direção. O ser humano educado na possibilidade de realização de algo bastante concreto, afrontando a aridez das lutas estruturais sem perder a sensibilidade para cada drama ou alegria pessoal. Certamente, por isso, integrar-se é a obra de uma vida; não é fazer mais, mas fazer com propósito; não é o somatório de tudo, mas aprender a fazer escolhas amadurecidas, porque discernidas e bem decididas.
Por isso, vale lembrar que ajudar, para Santo Inácio de Loyola, é o que dá sentido à vida e pode servir como chave de um processo de integração pessoal. Para o fundador da Companhia de Jesus, “ajudar torna a vida espiritual”, pois coloca em relação as dimensões da nossa vida. Ajudar permite, assim, a integração entre a ação e a contemplação, o serviço com e para os demais, na confluência de um crescimento pessoal, porque também coletivo.
Os que se recordam de Dom Luciano Mendes de Almeida vão se lembrar de sua frase preferida: “em que posso ajudar?!” De fato, o religioso jesuíta estava muito consciente de que um bom itinerário de integração pessoal começa com a dinâmica que reside em transformar o fazer cotidiano em ajudar. Como transformar, então, nossas ações diárias, tão plurais e variadas, numa ajuda com sentido aos outros? Como integrar nossas melhores forças e nossos dons no desenvolvimento de boas práticas?
Sem dúvida, o que mais tem sentido não é o fazer por si mesmo, mas como sentimos e saboreamos o que realizamos enquanto vivemos. Por isso, nossas famílias podem nos ajudar nessa sensibilização, começando de casa, como uma prática educativa, desde a mais tenra idade. Nosso exemplo como adultos pode gerar cultura e nossas atitudes, atravessadas por um olhar sensível, por uma escuta atenta e por uma atenção amorosa e pela contemplação da pessoa do outro e de suas necessidades pode ser sinal de salvação, pois é de afeto que se trata. E a IA que buscamos não é a Inteligência Artificial, pura e simplesmente, mas uma Inteligência Afetiva, gerada e cuidada no íntimo de nossos lares.
Afinal, educar nunca foi sobre estar todo o tempo envolvidos na aplicação de um plano ou de um esquema previamente estabelecido, pensado a partir de nós mesmos ou de nossas instituições. Se assim for, perdemos a fecundidade dos processos de crescimento humano, no intuito de alcançarmos e medirmos resultados, com vistas a verificar se eles se ajustam ou não ao que planificamos, não em função de como podemos, nesse exercício, que é também espiritual, crescer como pessoas melhores.
Para tanto, uma atitude imprescindível é a de nos examinarmos todos os dias para tomarmos consciência de que não estamos no puro cumprimento de obrigações. Trata-se mais do estabelecimento de uma cultura do cuidado e de uma atenção a si, aos outros e ao mundo. E isso exige que o nosso fazer se converta em gratuidade, fazendo do bem do outro o nosso ponto de partida e de chegada.
Essas são atitudes vitais de um itinerário compassivo e são também modos de nos situarmos diante de nós mesmos, dos outros, do mundo, da vida. Compõem, por assim dizer, um respeito profundo a cada pessoa, em toda a sua dignidade, para além dos seus condicionamentos, no processo educativo, quando se revela e se manifesta toda a sua densidade humana.
Ajudar é, pois, da ordem da proposição, não se impõe. Proposições com qualidade, com rigor, com convicção, com honestidade, com proximidade, com compromisso pessoal, social e eclesial, que só pode nascer onde há tempo e espaço para um acompanhamento que supõe diálogos de liberdade. Diálogos que envolvem a própria experiência humana cuidada, reconciliada e restaurada, o que precede dogmatismos e sentidos de pertença, porque está acima de ideais ou de doutrinas.
O ser humano que somos está em fase de construção e pede de nós grande ânimo e profunda generosidade, pois tudo o que somos e temos, fazemos ou vivemos tem caráter espiritual. A novidade desta vida é ser humano, viver com sentido esse acréscimo de beleza existencial nesta aventura que é, desde sempre e para sempre: eterna! Essa verdade inaugura possibilidades: “somos seres espirituais vivendo uma aventura humana” – Teilhard de Chardin já dizia…
* P. André Araújo, SJ é padre jesuíta, professor universitário na FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia) e na UNICAP (Universidade Católica de Pernambuco) e Diretor Geral do Colégio Loyola.
Artigo publicado na nossa coluna do portal Estado de Minas.