Vivenciando a cultura de paz com seu filho adolescente
Atire a primeira pedra quem, em algum momento, não parou de “falar na cabeça” do filho adolescente, para não esticar uma discussão no final do dia, no qual todos, inclusive você, só querem “ter um pouco de paz”. Este lugar, transformado em limite, que a paz ocupa nas trincheiras relacionais cotidianas, pode assumir vários tons, desde o “tô de boa, fique em paz”, quando não se quer desenvolver um assunto, até o “me deixa em paz”, como uma sonora porta fechada a qualquer proximidade…
Por vezes a conexão interrompida, antes mesmo de ser estabelecida, passa por lugares mais complexos, assuntos mais difíceis e necessários… É então que, em nome da paz, silêncios passam a ocupar lugares importantes, que justamente poderão subvertê-la de forma mais contínua, o que vai dificultando seu acesso e materialização como parte do conviver, como cultura de paz, em seu modo mais próximo e vivo.
O que se forma por baixo da camada de paz com seu filho adolescente? Assuntos que não se tocam? Concessões excessivas? Regras unilaterais? Uma convivência pacífica entre universos subjetivos tão distintos como o da adolescência e da maturidade é um desafio cotidiano. Demanda uma construção/reconstrução permanente de canais de diálogo que incluam uma escuta real e acolhedora de adultos dispostos a ouvi-los com ouvidos de dois tempos. Do tempo presente, para tentar vê-los e entendê-los no tempo em que vivem, mas, também, do tempo passado, como resgate possível de sentimentos, incertezas que nos habitavam naquele confuso, intrigante e difícil momento de não ser mais criança, mas ainda não ser adulto, dono do próprio destino e dos próprios caminhos…
Este resgate de um pouco de nós adolescentes certamente nos abrirá portas de empatia, capazes de uma compreensão genuína ao menos de parte do que os aflige, os motiva e pode estar prejudicando suas relações pacíficas com nós mesmos ou com outros, em casa ou na escola, nos grupos ou em diferentes tempos/ espaços de sua convivência.
“Há em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e um sol de outubro”, afirmava Machado de Assis, em sua conhecida obra Dom Casmurro. Em meio à correria desvairada do cotidiano moderno, com o ritmo do tecnológico imperando sobre todas as áreas de nossas vidas, não é tarefa simples resgatar o adolescente que fomos um dia, com seus sonhos e suas “casmurrices”, mas o esforço pode dar passagem a uma travessia conjunta, nem sempre convergente, mas parceira, rumo aos arquipélagos de paz familiar e social.
Conquistada a conexão possível para se falar dos desentendimentos, desencontros, incompreensões e conflitos ou de contextos aflitivos, ligados ou não à convivência em família, a hora é de muita escuta. Escuta acolhedora e, na medida do possível, sem julgamento, ou, ao menos, sem imediato julgamento, aquele que já impossibilita o ouvir verdadeiro, desarmado das opiniões e soluções prévias.
Partilhar com cuidado o delicado terreno dos sentimentos que envolvem o conflito, a partir de seu lugar de vivência nele, sem a tentação de escorregar para as repetitivas e infrutíferas acusações mútuas, é um passo importante que um diálogo desarmado poderá permitir.
Pequenos acordos com aquilo que ambas as partes serão capazes de cumprir para melhoria relacional em torno do conflito tratado são muito importantes, pois carregam proposições e intencionalidades conjuntas de superar situações que causam mágoas e têm o potencial de minar a convivência pacífica.
Vivenciar a cultura de paz em qualquer ambiente, familiar ou social, é parte de um investimento contínuo em ações e pequenos gestos que a corporifiquem.
No contexto bíblico, o conselho do apóstolo Pedro “busque a paz e empenhe-se por alcançá-la” (1 Pedro 3:11) vem lembrar que a paz não é algo dado, facilmente acessível ou configurada pela simples ausência de guerra ou conflito. É preciso determinação pessoal para alcançá-la e mantê-la em nossa convivência e no entorno ao nosso redor, seja ele nosso condomínio, nossa escola, as comunidades nas quais estamos inseridos, a cidade que habitamos e até mesmo o mundo, pois a paz depende de escolhas contínuas, de pessoas, cidadãos, grupos e Estados.
A paz ativa é um conceito que está no cerne da cultura de paz. No Colégio Loyola, adotamos a cultura de paz sob esta perspectiva, da paz ativa, ou seja, aquela que pressupõe não a ausência de conflitos, o que seria irreal em qualquer ambiente ou relação, sobretudo no meio escolar, mas a oportunidade de usar as situações de conflito para crescimento coletivo e pessoal. Se a força do coletivo pode ser determinante para o engajamento em um conflito, ela também tem o mesmo potencial para a promoção da vivência de paz.
Isabel Santana é Mestre em Linguagens pelo CEFET-MG. Pós-graduada em Bullying, Violência, Preconceito e Discriminação na Escola pela UNIFESP e em Currículo e Práticas Educativas pela PUC – RIO. Coordenadora do Núcleo de Educação para a Paz do Colégio Loyola.
Artigo publicado na nossa coluna do portal Estado de Minas.