Entre despedidas, vestibulares e escolhas profissionais, jovens e famílias vivem um dos momentos mais marcantes da vida escolar
O Terceirão chegou e, com ele, chegaram as expectativas, os desafios e a proximidade da passagem para a juventude. Para muitos, a conclusão do Ensino Médio representa a oportunidade de ingresso na universidade e a transição de estudantes secundaristas para o universo acadêmico. Mas, antes que a mudança da educação básica para o ensino superior se concretize na prática, muitos ritos acontecem até o dia da partida.
Boa parte dos estudantes está na mesma escola desde a Educação Infantil ou do Ensino Fundamental. Ali construíram laços de amizade e guardam na memória vivências, aprendizados e, com certeza, inúmeras travessuras. Hoje, circulam pelos corredores com o orgulho de quem alcançou o topo da trajetória escolar.
Todas as comemorações que antes faziam parte da rotina anual ganham um novo significado. Afinal, essa será a última vez que participarão da festa junina, das olimpíadas esportivas e dos eventos institucionais. A esses momentos, somam-se os Dias Temáticos, um momento exclusivo para colocar em prática a criatividade, a irreverência e o lado lúdico que eram tão cultivados lá na infância.
O interessante é que esse rito de passagem não é vivido apenas pelos estudantes; os pais também passam por essa transição. Nas reuniões letivas, quando os lembramos de que aquela provavelmente será a última reunião escolar de seus filhos, percebemos um misto de emoções. Surge a alegria pela conclusão de uma etapa, o alívio pelo encerramento das obrigações com a rotina escolar e o orgulho de ver o crescimento do jovem para além dos muros da escola. Junto a isso, aparecem lágrimas que mostram a saudade de um tempo que passou rápido. Os filhos cresceram, suas referências agora vão além do convívio familiar e suas escolhas podem não estar tão alinhadas com as expectativas iniciais dos pais.
Nessa fase, aquela pergunta insistente e precipitada dos tempos de infância ecoa nos pensamentos do adolescente como uma flecha que busca um alvo: “O que você vai ser quando crescer?”. O que antes era uma brincadeira de gente grande – mediada por maletas de médico, ferramentas de brinquedo, blocos de construção ou kits científicos oferecidos para estimular a criança – ganha outro peso. Na infância, uma habilidade simples logo era vista como um destino promissor: “Veja como desenha bem! Com certeza, será arquiteto ou designer”. Agora, o que era um exercício livre passa para o jovem como a necessidade de definir o seu futuro profissional, sob a falsa impressão de que essa decisão precisa ser definitiva.
Por isso, nesse momento, é fundamental que o estudante passe por experiências que ampliem seu conhecimento sobre as graduações. Essa busca por informação deve começar na internet, nos sites oficiais das universidades. Quanto mais detalhes ele tiver sobre as disciplinas do curso, o perfil do mercado e o nível de emprego, mais segura será a decisão.
Mesmo quando o estudante tem a oportunidade de dar continuidade a uma empresa familiar, fazer perguntas continua sendo essencial: qual é a rotina real de quem atua nessa profissão? As oportunidades de trabalho estão concentradas na capital, no interior ou oferecem expansão para outros estados e países? À medida que as perguntas são feitas e as pesquisas avançam, as possibilidades de escolha se tornam mais claras.
Além da pesquisa teórica, é muito importante estimular a participação em mostras de profissões promovidas por instituições de educação superior públicas ou privadas, que geralmente são divulgadas nos sites das instituições. Esses eventos trazem uma aproximação real com o ambiente universitário, permitindo conversar com professores e acadêmicos, tirar dúvidas e participar de atividades práticas que ajudam a compreender a dinâmica do trabalho.
Diante da importância de conhecer novas experiências, que tal compartilhar seu próprio processo de escolha com seu filho, neto ou sobrinho? Converse com ele. Essa troca ajuda o jovem a perceber que cada um vive essa trajetória do seu jeito, enfrentando desafios, saboreando conquistas e, às vezes, precisando recalcular a rota e fazer novas escolhas.
O objetivo central é ampliar horizontes. Muitos adolescentes apresentam altos níveis de ansiedade porque se cobram uma definição imediata. Entretanto, a experiência no acompanhamento de estudantes de Ensino Médio confirma que poucos chegam à 3ª Série com uma certeza absoluta. Quando isso ocorre, geralmente está associado a uma identificação com a profissão de pessoas de sua convivência, ao resultado de processos de Orientação Profissional conduzidos por psicólogos, ou, ainda, ao próprio desenvolvimento pessoal e ao autoconhecimento.
Para a maioria, o cenário é de uma indefinição que eles têm muita dificuldade em aceitar, como se a dúvida não lhes fosse permitida. É comum ouvirmos no cotidiano escolar desabafos como: “Eu não sei que curso fazer”, “Meus amigos já decidiram”, “Minha família diz que me apoia em tudo, mas sei que preferem que eu faça tal curso”.
Esses questionamentos se multiplicam com a proximidade do segundo semestre, quando se aproximam as inscrições para os exames de acesso ao ensino superior. A nossa principal tarefa, portanto, é acolher essas inquietações, escutar sem julgar, abrir caminhos e deixar bem claro que, independentemente da direção escolhida, eles sempre poderão buscar apoio para dar o próximo passo.
*Adriana Braga Chaves é Psicóloga, Pedagoga e Orientadora Pedagógica da 3ª série do Colégio Loyola.
Artigo publicado na nossa coluna do portal Estado de Minas.